Da minha infância eu trago a arte de fazer; de ver nas coisas algo que ninguém mais vê; de arrumar utilidades pra trecos variados; de transformar madeiras antes inservíveis em brinquedos…
Eu tive um Mestre. Mestre nas artes da vida. Nas artes de fazer. Na arte de me conduzir.
Me recordo, como se fosse agora, quando ele apanhou certo montinho de argila, que havíamos garimpado no “areial”, e dela fez um pequeno campônio, pouco maior do que a palma de suas mãos, usando somente os dedos como instrumento.
Lembro-me do revólver de prata, feito por esse grande artífice que é meu Pai, empregando pedaços de bambu, arame e madeira, cuja beleza provocava tanto encantamento nos meus companheiros de folguedos.
Dos seus pincéis e tintas surgiam, na tela branca e lisa, lindas e sonhadoras paisagens.
E recordo do meu “carrão de bombeiros” , movido a pedais, cheio de enfeites artesanais: a pintura da grade dianteira, à guisa do seu Dodge 57; a proteção da caçamba, pintada em azul e arabescos dignos do mais caprichoso caminhoneiro; o aviãozinho amarelo, que ainda hoje me faculta voos longos, em suas asas já um tanto vetustas.
Pedaços de lata velha; madeira que um dia pertenceu à uma vassoura e um pouco de tinta verde e amarela: ei-lo!
Vendo-o, o mais neófito dos amantes da aviação identificam em suas linhas o lendário North American T-6.
Ao contrário dos modelos de verdade, a verdade desse meu modelo já dura quase 60 anos. E mesmo com o transcorrer da areia na ampulheta, ele voa de forma intermitente, sem precisar de outro combustivel que não os de minhas recordações, sustentando-se nos ventos de minha saudade imorredoura.
Enquanto isso, eu continuo dando destino às coisas que caem sob meu domínio. Igualmente, tinjo telas com minhas tintas e pincéis, conservando a mesma paleta ovalada usada por ele, em tempos que já lá se vão, retratando mundos que são tão e exclusivamente meus…
Coemntários
Sem comentários to “AO MEU PAI, AMAURY MAINENTI”
No comments yet.