Meu amigo chegou. Chegou em uma tarde de maio, numa segunda-feira atarefada como toda segunda-feira o sabe ser. Chegou logo após o almoço, no prelúdio de uma tarde outonal, quando então as árvores se despem de sua verdeante copada, ostentando sua macérrima galhada, e aquelas folhas que ainda insistem em permanecer agarradas aos galhos da vida apresentam-se com aquela característica cor ocre-esverdeada. Veio sem avisar — como sempre fazem os grandes amigos —, faminto, esperando filar o almoço, vez que é sabido por toda boa gente que em toda boa mesa sempre há uma cadeira reservada para os amigos de última hora.
Mas meu amigo chegou. E ficou. Instalou-se em minha casa e em minha vida. A princípio, pouco alterou a minha rotina. Passava horas inteiras ora na modorra, ora dormindo profundamente. Houvesse chegado de uma viagem à África e, provavelmente, afirmar-se-ia que ele fora vítima das moscas tse-tsé, que transmitem a doença do sono. Só acordava pra se alimentar, empanturrar a barriga e retornar para os braços de Orfeu. Sem que eu compreendesse ou encontrasse causa imediata para o porquê de tanto sono, meu amigo começou a dar-me algum trabalho, pois vezes sem conta realizava as necessidades inerentes à natureza humana em suas próprias roupas. Foi preciso adquirir alguns acessórios que lhe facilitassem este desprendimento involuntário, sem maiores prejuízos ao mobiliário.
Dada a sua saúde não lá muito forte, tive alguns sobressaltos pelas noites afora. Um pequeno mal se lhe apresentou por um determinado período de tempo. Tudo aquilo que comia não lhe parava no estômago. Este, rebelde e ingrato, costumava retornar para o mundo exterior tudo aquilo que recebia. Claro que as coisas sempre retornavam um pouco diferentes do formato original, como se tivessem sido parcialmente usadas. E, dado o profundo sono que meu amigo estava sempre investido, tive que passar algumas noites em claro, velando-lhe e invejando-lhe o sono profundo, receoso de que viesse a sufocar-se com as próprias secreções, se assim as podemos denominar.
Mas, passado esse período conturbado, não sei se eu já estava acostumado com sua presença ou se, na verdade, ele é que havia se acostumado com os meus exageros de amigo extremado. O certo é que nossos dias se tornaram tão rotineiros quanto eram aqueles anteriores ao da sua chegada. Meu amigo foi se recuperando e, gradualmente, foi readquirindo a sua independência momentaneamente perdida. Só que, à medida que ele readquiria sua independência eu ia perdendo a minha. Creio que toda amizade profunda seja assim mesmo. Quanto mais forte, quanto maior o amor que une as criaturas de Deus — em cujo conceito incluimos nós outros, seres humanos —, menor é o nível de independência delas, umas em relação às outras. Temos que aceitar que dependemos uns dos outros para viver e sermos felizes. O mito de Robinson Crusoe é o que é: um mero mito, nada mais. Afinal de contas, até ele mesmo precisou de um Sexta-Feira como amigo, para aguentar as agruras daquela ilha perdida, ainda que este não fosse o azarão de uma sexta-feira treze.
Disse que meus dias retornaram à antiga rotina. Pensando bem, creio que seria um equívoco afirmar que seja a mesma rotina. Afinal de contas, antes da chegada do meu amigo eu não tinha ninguém me perturbando o sossego das horas trancadas em meu sacrossanto escritório. Horas essas que gastava na elaboração de relatórios, petições diversas, no estudo de compêndios de Contabilidade e Direito ou mesmo na leitura de agradáveis textos desses agradáveis autores pátrios que tanto honram as nossas belas-letras. Agora não. Minha rotina é outra. Comumente sou interrompido por um bater na porta, implorando para que eu a abra. Meu sacrossanto escritório tornou-se também o sacrossanto escritório do meu amigo. O personal computer, que antes era pessoal, de uso exclusivo, tornou-se coletivo. Um condomínio instituído contra a minha vontade. Sabe como é, o computador é como um caderno. Nele você trabalha, escreve cartas, transcreve seus sentimentos mais caros e etc e tal. Compartilhá-lo com um estranho, por mais que esse estranho não seja lá tão estranho, não é uma tarefa fácil. Ainda mais quando se tem um agravante: meu amigo adora tocar a tela com seus dedos curiosos. Estou freqüentemente limpando-a das marcas de suas digitais, ali deixadas sem qualquer receio.
Apesar de um ou outro inconveniente, reconheço que meu amigo tem uma particularidade significativa: seu sorriso. Bem, não sei se é apenas pelo belíssimo sorriso, que consegue demover-me de qualquer decisão tendente a afastá-lo, quando estou trabalhando. Talvez seja porque, emoldurando-lhe o significativo sorriso existem umas madeixas cor de mel que, quando bafejadas pela luz do sol se incendeiam, adquirindo reflexos áureos. Sim. É verdade. Seu cabelo é dourado. Nem louro, nem castanho. É dourado, como o são os cabelos dos anjos. Creio que é isto mesmo que ele me lembra: um anjo. Daí tanta reverência para com ele. Para completar, sua pele é alva e macia, com um par de bochechas avermelhadas, encimadas por um par de olhos bem curiosos, da cor das folhas secas pelo outono. Acho que é por isso que ele veio em um dia de outono. É para eu me lembrar sempre daquele dia. Daquela segunda-feira em que a mão invisível do destino mudou a minha vida.
Eu só sei de uma coisa: meu amor pelo meu amigo tem aumentado a cada dia, crescendo em intensidade e maturidade. Como posso aferir isso? Sei lá! Apenas sei que, quando ele está dormindo, sinto-lhe a ausência. De ouvir o ruído de suas passadas pela casa. De ouvir suas reclamações. Porque ele já aprendeu o quanto é importante reclamar seus direitos. Cidadão consciente. Atitude condizente com este mundo globalizado.
Sabe que já nem me incomodo mais com suas costumeiras interrupções? Na verdade, sinto mesmo é a falta de ser interrompido. Principalmente quando ele bate à porta do escritório, interpelando-me pelo mais gratificante dissílabo que um homem pode ouvir:
“— Pa…pá!…Pa…pá!.¨
QUADRO: MAINENTI, A.R. “Meu filho aos 3 anos”. OST. 90x70cm. 2006
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