Gosto de relembrar as tardes da minha , quando descíamos, eu, mamãe e meus irmãos, a escadinha tosca de nossa residência humilde e singela, que levava-nos direito para a quinta, repleta de árvores frutíferas.
Relembro, com saudades, como o sol, em, seu lento a goniado adeus, osculava levemente as flores e os frutos do arvoredo, matizando-as com cores de cambiantes variados.
A goiabeira apinhada de frutos amarelos e suculentos, iluminada pelos raios do sol morimbundo, parecia que continha inúmeras luzes, como se enfeitava estivesse (e possível fosse), para a comemoração do nascimento de Nosso Senhor. Faziam-lhe concorrência as adoráveis ameixeiras, com suas bolinhas de gude amarelinhas, outras pretinhas, que também faziam a festa da morcegada pela madrugada afora.
As taturanas, senhoras de longos e sedosos cabelos de fogo, pareciam incendiar-se qual fogo fátuo, quando expostas ao sol vespertino. Aquelas destituídas da longa cabeleira ígnea aninhavam-se bem unidas nos caules das laranjeiras, como se estivessem a esperar um frio glacial, que viria envolvê-las junto com o negror do manto da noite.
A figueira, esta, coitadinha! Mal-mal dava um figuinho mixuruca, que até os passarinhos se recusavam a comer.
O pessegueiro, aberto em flor, era um convite às delícias futuras que nos proporcionaria. Não esqueço um amigo de meu pai que, certa feita, visitando-nos, quase devorou todo o pessegueiro.
De quando em vez, um abacate despencava de madureo do abacateiro.
Acomodados aqui e ali no vasto quintal, minha mãe fazia-nos o obséquio de cortar um talo de cana-de-açúcar, descascando-o para nós. Era tão bom! Sentávamos no chão de terra, cada um portando uma vasilhinha plástica repleta de caninhas cuidadosamente cortadas, bem divididas. Ainda hoje posso sentir o gosto do açúcar em calda em minha boca.
Absortos nesta doce operação, minha mãe punha-se a aguar as plantas; o parreiral, que nunca produziu sequer um mísero cachinho de uva; as inúmeras samambaias e antúrios, colocados prudentemente sobre um giral, que ficava sob a mangueira maior; as laramjeiras e as mexeriqueiras, que sempre tinham a seus pés, circundando-lhes, uma meia banda de pneu de automóvel cheia d´água, colocado quando elas ainda não passavam de pequenas mudinhas. Era ótimo sentir o cheirinho da terra molhada, que a brisa vespertina trazia até aos nossos pequenos e curiosos narizes.
Se era o mês de outubro, logo após iniciávamos a plantação das sementes de milho, que dispunhamos diligentemente nas covas que minha mãe cavava na terra com a enxada. Uma, duas, três sementinhas eram colocadas; puxava-se a terra com as mãos em cunha para dentro da cova e água, muita água sonbre o terreno semeado, para que elas pudessem germinar e crescer. Melhor do que ver, depois, as sementes germinarem e ostentarem seus galhinhos fora da cova rasa onde foram metidas, era saborear as iguarias que o milharal crescido nos proporcionava: mingau de milho verde feito no tacho, milho assado na brasa, milho cozido, pamonha (engraçado! Nunca gostei de pamonha).
Ao declinar do dia, quando o céu começava a cingir-se com o manto azul profundo dos Impressionistas, e todos os pardais, tico-ticos, rolinhas, sabiás e canarinhos já haviam se aninhado em seus ninhos suspensos na densa copada das árvores, e as galinhas já estavam empoleiradas no poleiro, retornávamos para o interior de nosso lar, onde outras delícias já estavam a nos aguardar, como bolos de milho e de chocolate, manteiga e leite fresquinhos, pudim de pão assado no forno, e sonhos recobertos por uma camada de açúcar.
Sim, é como um daqueles sonhos açucarados, que não voltam mais. Pudessemos materializar nossos sonhos, nossas lembranças… Mas, graças ao bom Deus, o que não morre nunca é o pensamento. Levarei minhas lembranças comigo, seja onde estiver. Esquecer-me-ei jamais das doçurosas tardes de minha infância despreocupada e feliz.
Coemntários
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