Naquela manhã nós pegamos a estrada. Bem, não era bem pela manhã, mas ali, por volta das 11:30 horas, quando começa a chegar ao olfato, trazidos pela brisa, os perfumes da comida feita nos fogões à lenha, postos nos arrabaldes daqueles rincões dos campos altos mineiros, atiçando o estômago julgado adormecido desde o café. Consultada a ciência do tempo (será mesmo a climatologia uma ciência?), havia riscos de chuva em 83% do tempo. Mas havia, lado outro, 17% de que não haveria chuva na região. E foi isso que nos tirou daquela inércia típica de feriado de Todos os Santos, em que você deseja porque deseja fazer algo, mas a “preguicinha” chata insiste em atirá-lo no ostracismo.
Bem, feita a nossa matula, fomos para a estrada. A princípio o asfalto se desenrolava macio e sereno sob as rodas do nosso T “Tiranossauro Rex”-Cross. Alcunha estranha, não? Melhor seria algo ao estilo “Manuel, o Audaz”, do famigerado Toninho Horta, cujos belíssimos acordes embalaram nossa juventude; mas falta à modernidade o charme e os desafios mecânicos de um Jeep, essa máquina incrível criada pelo pessoal lá do norte, de uma tal República Americana, que sozinho poderia bem ter ganhado uma guerra. Não qualquer guerrinha, mas uma guerra mundial. É só olhar o “bichão” nas águas da Normandia ou nas ilhas do Pacífico Sul e você compreenderá a fama desse guerreiro.
Tomamos então o acesso à tão querida Serra da Saudade, distante cerca de 50 quilômetros de “Sango”. Lugarzinho peculiar, parado no tempo, cuja população vem, a cada ano, se reduzindo paulatinamente. Pra se ter uma ideia, no momento em lavramos estas palavras a população deve contemplar pouco mais de 700 (sim, setecentos!) habitantes. São pouquíssimas ruas: uma via principal, que se inicia no término da estrada que a liga a Dores do Indaiá e adjacências e termina no alto do morro, onde alguém tivera a feliz ideia, outrora, de instalar a primorosa e delicada Igrejinha do “Carrrrmo” (tem que carregar no erre!). Do lado oposto, voltado para o crepúsculo, o campo santo. No centro, uma praça bem cuidada, formada a partir da antiga estação de trem, cujos trilhos iam findar lá num lugar chamado Estação Barra do Funchal, bem próximo ao Rio Indaiá, famoso por estrelar a campanha “Caminhos do Indaiá”, honorável iniciativa para valorizar uma região plena de história e de estórias. E mais umas duas ou três ruas que acabam em estradinhas de terra, que ligam o pequeno povoado às fazendas locais e que, num passado distante, se constituía na rota para o oeste dessas Minas Gerais.
É justamente nessa estrada que estamos…
A vegetação exuberante e a terra úmida exalam essências características. Pareço mais um cão criado na cidade, que, desacostumado à liberdade campesina, fareja sofregamente o ar, buscando identificar na Natureza a origem das mesmas.
À cada curva se comprova, olhos vistos, como o cerrado se torna exuberante, à menor chuva que cai. Há trechos em que as copadas das árvores se unem e formam túneis de singular beleza e sombras plenas de frescor. Ao longe se avistam fazendas centenárias, a fumaça evolando pelas chaminés, o gado pastando mansamente…
As chuvas precedentes promoveram um clima ameno e uma brisa suave que agrada principalmente a nosso fiel escudeiro – o destemido Ozzy –, que, do alto de seus poucos centímetros, é o mais valente dos cães. Deveria se chamar “Príncipe Valente” (será que os sucessores do famoso ilustrador Hal Foster questionariam tal decisão?) e igualmente merecer umas tirinhas num jornal de grande circulação, tipo um The Times tupiniquim. Esse esperto maltês italiano opera incansável em nossa defesa 25 horas por dia!… Lado outro, parece que ama mesmo viajar. Basta anunciar um passeio e ele se agita, correndo à nossa frente e dando voltas em torno do seu eixo, em franca e inequívoca demonstração de alegria. Aboleta-se no banco do passageiro e fica a observar a paisagem da janela, com aqueles característicos black eyess, ao mesmo tempo em que recebe o bafejo fresco do vento em seu pelo alvo e sedoso.
Percorrendo, pois, em velocidade reduzida a estrada de terra batida, ultrapassando um ou outro obstáculo – vacas e bois, buracos mais acentuados ou imensas poças d´água – deparamo-nos a certo trecho com aprazível recanto, em que se vislumbrava à nossa direita una piccola chiesa e, mais à frente, onde a estrada se bifurcava e ostentava rústica placa com uma seta e os dizeres “Serra da Saudade”, o casario de velha fazenda, cujos cães, entre latidos e uivos – parecia mais uma matilha – vieram em desabalada carreira saudar os desconhecidos visitantes.
Como guardar serenidade numa hora dessas, com o fito de captar imagens fotográficas de nós outros, assentados sobre o pequeno muro em que a hera começava a cobrir?
Bem, relembrando as palavras do Apóstolo dos Gentios, na dúvida quanto à questionável camaradagem dos cães, optamos por nos recolher ao interior do nosso T-“Rex”-Cross e ganhar estrada, novamente.
Esta, por sua vez, se tornava à cada metro mais inóspita, levando-nos a crer que estávamos, na verdade, em uma trilha de carroças. Todavia, quanto pior as condições da estrada, mais belos eram os cenários que se descortinavam ante nossos olhos sedentos por ver. Até que avistamos o Rio Indaiá, com suas águas barrentas e margens repletas de farta vegetação, sob uma chuvinha leve que caia e anunciava que mais estava por vir.
“O rio Indaiá deu origem ao povoamento da região. Seu nome é oriundo de uma palmeira comum na região, a Indaiá. O rio Indaiá nasce em Cachoeirinha, distrito de Córrego Danta, próximo à BR- 262. Tem 226 quilômetros de extensão e sua foz é na represa Três Marias, no Rio São Francisco. “Tem grande importância não apenas por ser um rio perene, de água sempre pura, mas por ter, no passado, a fama de seus diamantes de pureza ofuscante de grande valor no mercado, que provocou verdadeiras corridas de aventureiros na busca da fortuna fácil”, esclarece nosso amigo, o jornalista Wolney Garcia[1].
Ante a beleza desse curso d´água[2], em cujas águas meu pai e meu avô, há quase cem anos, retiraram piaus e mandis, bagres e traíras e outras espécies comestíveis subaquáticas, não foi possível conter nosso impulso fotográfico e a ele nos entregamos, enquanto curiosos nelores nos olhavam além dos cercados.
Depois da ponte, a estrada faz uma curva à direita, sinalizando a direção para Serra da Saudade, tendo à esquerda uma outra belíssima fazenda, com currais e cercas bem pintadas, denotando desmedido capricho por parte de seu titular.
A chuva fina continuava inclemente e as condições da estrada foram gradativamente piorando. As poças d´água iam se transformando em significativos lamaceiros, mas que nosso T-“Rex”-Cross vencia galhardamente, ainda que um simples 4×2. E então chegamos na antiga, bela e bem cuidada (foi o que nos pareceu) estação ferroviária da Barra do Funchal.
Ali, cães igualmente inamistosos nos convidaram a seguir viagem. Ultrapassando os lamaceiros que iam se tornando cada vez mais frequentes, do alto do morro avistávamos o Rio Indaiá serpenteando no fundo dos vales, até onde a vista conseguia alcançar. Nesse interregno a chuva cessara e um cálido sol surgiu por entre as nuvens, mas com intensidade suficiente a aquecer aquela terra dadivosa, ricamente coberta pela típica vegetação do cerrado.
Mas não o suficiente para secar a lama…
Foi justamente quando tentávamos ultrapassar um banco de barro, localizado em suave encosta quando, vindo forte aguaceiro, nosso T-“Rex”-Cross vacilou, sambou como cabrocha na passarela, deslizou como azeitona na boca de banguela e atolou. Ou atolou-se. Ou “se atolou-se”, como dizia o Juca Chaves.
Se você está em grupo de jipeiros ou traieiros, desatolar um veículo é muito fácil. Mas quando é você, sua mulher e um cachorro, literalmente “no mato com cachorro”, aí a situação muda. Foi necessário aguardar a chuva passar, ganhar estrada “de a pé”, como dizem os “paesani” daquelas paragens e buscar ajuda. Uma ajuda inestimável, devemos destacar. Mas essa deve ser uma outra estória a ser contada.
Passado o sufoco e com intermináveis lamaceiros para ultrapassar, fomos percorrendo os altos daqueles campos. Como são belas as paisagens!… Todo esforço compensa.
[1] Disponível em https://www.minasgerais.com.br/pt/atracoes/serra-da-saudade/rio-indaia. Acesso em 17.11.2021.
[2] “O Indaiá está protegido, de um lado e outro, desde a nascente até a foz, por montanhas expostas de maneira a dificultar os loteamentos urbanos e o exercício das atividades agrícolas em larga escala, além do privilegio de não estar sendo agredido pelas descargas de esgotos e produtos tóxicos. Precisa, portanto, continuar mantendo preservada toda a sua integridade. Para isto, é necessário que a sociedade e os seus frequentadores permaneçam em constante plantão de vigília e fiscalização”. Artigo disponível em https://www.sgagora.com.br/sg/rio-indaia-ganha-nota-maxima-em-excelencia-de-agua-de-acordo-com-instituto-mineiro-de-gestao-das-aguas/
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