Curiosamente, a estradinha de fértil terra “vermêia” que leva ao Sitio Nossa Senhora de Aparecida, sempre “quebra à “direita”. As coordenadas são simples: “ocê” vai descendo o asfalto do Córrego da Venda toda vida, até o km 77. Aí você já quebra à direita na estrada de terra, transpõe um mata-burro e segue seu caminho sempre à direita. “Espia” só: minha memória peca “com esse trem de “isquerda”. Há somente uma quebrada “dessas ai”, como se a Natureza e o próprio homem desejassem nos lembrar que, se não é possível trilhar o caminho do meio, a direita será sempre a apropriada.
“Imbicando” o carro na estrada que, como dito, se desdobra à esquerda, há que se imobilizá-lo para contemplar a belíssima paisagem que se descortina, ante nossos olhos ávidos de ver. A terra vermelha compõe um cenário harmonioso com o verde – ainda que seu viço esteja meio esmaecido, por força desses dias de inverno seco das Minas Gerais –, trazendo à lembrança as lições dos famigerados pintores impressionistas, quanto à contraposição de cores primárias e secundárias. Parece assim que todo o cenário se move, eis que as meninas dos olhos não conseguem mirar fixamente em um único ponto, migrando de um para outro numa rapidez frenética. Tivesse certo pintor holandês perlustrado essas glebas, e certamente teria ele sentido a necessidade de fixar em tela, com seus pincéis dotados de uma magia incomum, os efeitos de luzes e cores. Que prodígios pictóricos poderia Van Gogh ter criado?
Bem, passado esse estupor inicial que acomete o viandante por aquelas cercanias, se continua a marcha ascensional, retomando a estrada sempre à direita, até chegar num ponto mais elevado em que, dali, se pode abarcar o horizonte distante, a um lado, e do outro se consegue distinguir o casario – bem cuidado, em sua maioria – do antigo “Arraial da Confusão” (mais tarde, mudado para São Sebastião do Pouso Alegre da Confusão, São Sebastião do Pouso Alegre e, por fim, São Gotardo, em franca homenagem a um dos desbravadores daquelas terras dos campos altos desse vasto território mineirinho, o Joaquim Gotardo de Lima, considerado o fundador da cidade).
A estrada vai serpenteando e se perdendo por entre e para além do vasto milharal, além do mata-burro e da porteira, pintada com tinta preto-fosco, bem como os mourões e tábuas que compõe o cercado. Nada como fazer uma segunda pausa e, retornando aos áureos tempos de criança traquinas, fazer a velha porteira de balanço ou se aboletar na cerca de madeira, gastando “uns minutin” para recordar… (Ah! Lembrança não volte mais, para guardar os meus ais! Amor que se foi… Amor que chegou, quando você não o esperava mais…)
À sombra de grande caroba, plantada adjacente à porteira, o apreciador das coisas simples e belas da vida só quer descansar. E meditar. Ela convida a isso. Aproveitar a quietude campesina para refletir sobre as desnecessidades da vida. E ao final comprovar que precisamos de bem pouco para sermos felizes. A simplicidade é a pinguela para a felicidade. Uma “pinguelinha” sobre um riachinho alvissareiro, piscoso, correndo entre as pedras. Estava certo aquele famigerado escritor das terras de Itabira, o Carlos Drummond, quando dizia que a beleza está nas coisas mais simples. Ou o grande Guimarães, que já levava uma combinação de cores no próprio nome: “Felicidade se acha é em horinhas de descuido!”
E por falar em simplicidade, há coisa mais pura do que vacas pastando e ruminando “ruminantemente” o capim viçoso, junto à entrada de sítios e fazendas? Pois foi por essas simpáticas figurinhas do mundo animal, que desde ontem vem humildemente servindo ao homem e estiveram ali, no rústico santuário do nascimento de nosso Senhor Jesus, que vieram nos receber lá na entrada do Sítio. Foi ainda necessário percorrer mais algumas centenas de metros, até sermos recebidos pelos residentes, o simpático casal Vicente e Selma.
Só quem já visitou os nossos campesinos é que pode aquilatar o prazer da recepção. Da amizade sincera. Da nascente amizade sincera. Da conversa saudável ao redor de uma mesa farta. Dos perfumes que evolam da comida feita no fogão à lenha. Dos sabores que você somente encontra nos temperos usados pela agradável gente do campo… “Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria”, dizia o famoso sertanista Guimarães Rosa. E que alegria é conviver com pessoas cuja maior alegria é saber da sua alegria. Parece um cachorrinho tentando morder o próprio rabo, não é? Mas é mesmo assim, e assim é que é.
E a tarde desse dia chegou. E com os primeiros anúncios do sol que em breve se poria, “veio as urgência” de se ter que partir. Uma partida levando na alma os pequenos milagres que já estavam acontecendo, e que a gente não via acontecer. Dá um nó no coração, a partida. Um doer sem precisar a fonte, que não dói como machucado que dilacera a carne e sai sangue. É um doer de um vazio dado pelo querer de permanecer, e não ter que se ir. É um incômodo dado pela saudade dos amigos que já se instaura. Porque “Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou — amigo — é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é”.
Eu sempre tive esse defeito Roseano: uma curiosidade de coração. “Isso de estimar os outros, muito ligeiro, defeito esse que me entorpece”. Mas como é bom estimar os outros. Pena que haja pessoas que estão vindo muito demoradas… Já poderiam ter chegado bem antes, mas chegaram a tempo de nos salvar de nós mesmos. Bom mesmo são as surpresas da vida. Os encantamentos repentinos. E o poder de ainda nos encantarmos.
Sim, “Tudo o que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparos de avisar”. Essas mudanças nos arrebatam. E não raras vezes nos transformam nas mais felizes das criaturas.
P.S. Para Jo, que veio quieta no escuro, sem preparos de avisar, e trouxe aquelas alegrias que eu sempre rezei para encontrar; afinal, as coisas estão todas amarradinhas em Deus.
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