A violência? A pobreza, mãe desnaturada daquela? A falta de educação escolar e familiar? A ausência de níveis elevados de cultura? As incivilidades, sempre presentes? E, corolário a esta última, o desprezo pelas leis e a certeza de que o crime não descompensa?
Talvez devamos acrescer às indagações supra a seguinte pergunta: o que aconteceu com o Brasil? Ou melhor, o que fizeram com o Brasil?
É preciso viajar. Viajar é preciso. No tempo.
Nasci às 19 horas de uma segunda-feira atabalhoada, lá no mês de agosto dos idos de 1965. Foi no dia 09 e, não sei se por conta desses mistérios que existem entre o céu e a terra, devo reconhecer que significativas mudanças em minha vida aconteceram e acontecem justamente nesse dia 09…
1965 era ano de efervescência do Governo Militar, instaurado em maio de 1964. Ainda criança à época, minhas recordações mais longevas desse período de minha meninice correspondem à uma espécie de “dolce vitta”. Não que meus pais tenham sido outrora visitados pela Deusa Lakshmi, também conhecida pelos gregos e romanos por Tique, que, naturalmente cega e espargindo suas benesses sem ver a quem, certamente tal maná não cobriu os caminhos dos meus laboriosos e honestíssimos genitores.
Porém, como todo carro de boi ou carroça passa, emitindo seus gemidos típicos, assim também o tempo se foi e algumas lembranças de nossas andanças e lambanças ficaram.
Crescendo em um bairro localizado na periferia dessas plagas belorizontinas (ou “Bel’zonte”, como dizem os citadinos), conhecido pela expressão “Venda Nova”, cuja origem é talvez mais antiga do que a própria capital das Alterosas, a vida corria tão tranquila e pacata quanto como em qualquer dessas agradáveis cidades do vasto território mineiro.
Nossa casa não tinha muros, e quando este foi construído era algo bem distinto das fortalezas hodiernas, com suas serpentinas, cercas elétricas e instrumentos similares se segurança.
A escola pública, localizada a algumas quadras de nossa casa, tinha uma qualidade de ensino invejável e que raramente se encontra no ensino público atual. As salas de aulas eram limpas e organizadas. O sentimento de patriotismo era incentivado. Todos os dias, reunidos em fila no pátrio central, cantávamos o Hino Nacional e orávamos, antes de adentrar as salas (sempre me pergunto se as pessoas sabem cantá-lo, bem como o Hino da Bandeira ou da Independência). Em cada uma dessas havia um armário, recheado de livros de contos, poesias e fábulas, à cuja leitura semanalmente nos dedicávamos, ávidos voejar com as asas dos seus escritores. Íamos e voltávamos à pé, sozinhos ou em grupos de colegas, naquela algaravia típica da infância, carregando nossas pastas e merendeiras, uniformizados, sem nos preocuparmos com assaltos et caterva. Eram meninos e meninas branquelos, outros negrinhos, uns meio gordinhos e outros quase raquíticos, como o era este escriba. E ganhávamos alcunhas jocosas, por conta de nossas características pessoais. Mas éramos tão somente crianças, antes que viessem a acabar com essa pureza infantil e dividir a sociedade em “nós&eles”.
Era possível dormir com portas e janelas abertas. Nunca conhecemos a palavra “assalto”.
Ah! Como era verde o meu vale!…
Parece mesmo que nuvem tenebrosa e pestilencial cobriu os campos verdes desse nosso Brasil, soprada por ideologias nefastas. Soltaram toda uma matilha de lobos das furnas infernais mais profundas, e tais monstruosidades, de notória inteligência, assumiram o comando dessa Pátria dita do Evangelho.
Nesse interregno, tendo eu já adentrado o último terço dessa minha existência corpórea, assisto impotente a violência campear solta, correndo como besta-fera pelos campos desse Brasil, aspirando em longos haustos os ares da impunidade, que faz com que o crime compense.
Tenho visto a grande mídia televisiva manipulando a mente de pessoas desavisadas, particularmente aquelas que moram na grande vergonha das cidades – as favelas –, para que pensem que a realidade que vivenciam possui algo de glamoroso. De cultural. De dever existir. E para tal colocam artistas de escol para prestar este desserviço, evitando que o homem pense e, se revoltando contra o sistema que o violenta, busque a melhora de condições que merece a sua natureza humana, demasiadamente humana.
Assisto estarrecido à falta de consciência política dos meus compatriotas; uma consequência direta desse processo de achatamento do cidadão, fazendo a sociedade crer que há indivíduos de primeira, segunda, terceira e enésima categoria. De que aos primeiros cabe toda a inteligência e, aos demais, a imbecilidade, como querem alguns odientos Torquemadas, com suas vestes talares.
Brasileiro, você é o único senhor do seu destino. Enquanto digladia por esse ou aquele chefe do Executivo, se esquece que a raiz dos males se encontra em uma outra casa, que exerce o poder (ou função, mais apropriadamente falando) de legislar.
São os membros do Legislativo que votam projetos de leis e derrubam vetos parciais ou totais a estes, feitos pelo chefe do Executivo. É o Legislativo, no exercício do poder constituinte originário e posteriormente derivado, que promulga a Constituição e a altera, mediante aprovação de emendas. É ele que tem o poder, assim sendo, de alterar a estrutura de poder dos demais poderes. É o exercício de legislar que criou a reeleição de chefes de executivo e atribuiu a estes, no âmbito nacional, a indicação de homens para compor os tribunais superiores, com a atribuição precípua de guardas da Constituição, aplainando o campo para que indivíduos portadores de atributos morais nada elevados possam implantar ditaduras. Afinal, se você não controla os juízes, você não governa…
Por isso apregoamos a necessidade da “dança das cadeiras”. O risco de cerceamento da liberdade, com a eleição de representante de uma mesma ideologia – especialmente aquelas de caráter nitidamente autoritário e totalitário – é iminente, como se observa nesses tempos bicudos e difíceis. É necessário que haja o fim da reeleição, da vitaliciedade de ministros, da indicação política, da inércia do Legislativo…
Pois é graças a esta última – a raiz de todos os males – que as suas criaturas têm se voltado contra o seu Creador.
Coemntários
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