Não vai ter golpe?

  • Por: Amaury Rausch Mainenti OAB-MG nº 86.310
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Assisti, meio estupefato e ao mesmo tempo irado, a propaganda partidária veiculada na noite deste dia 27 de outubro do corrente. Afirmaram, perante todos os brasileiros, mesmo com todas as evidências envolvendo o uso indevido da máquina estatal, de que devemos apoiar o governo da situação. E que não admitirão um “golpe”?

O “golpe” foi dado nas últimas eleições. Alguém ainda duvida disso? O cidadão de bem, que assiste diuturnamente a este festival de escândalos com o dinheiro público, perpetrados pela bandidagem de terno e gravata, ainda crê no discurso hipócrita daqueles que, mesmo que não diretamente envolvidos nesses escândalos, apoiam o partido do governo?

E o que nos deixa assustados é: que está ocorrendo atualmente na América Latina? Que movimento é esse, em que um grupo de homens tenta subverter a ordem das coisas, travestindo o errado com roupagens primorosas de uma (falsa) verdade, enganando até mesmo as almas mais precavidas?

Por que há esse grupo de homens, que pregam uma pseudo igualdade entre todos os demais seres humanos, enquanto eles querem e vivem como príncipes absolutistas, desfrutando de todas as benesses que o capital proporciona, se apropriando descaradamente do dinheiro do cidadão, arrancado dele pela via dos tributos? Eles, por certo, não querem viver em habitações coletivas. Querem mesmo são casas e apartamentos milionários; iates e aviões de ponta; carros de luxo; férias em caríssimos paraísos terrestres; sorvendo vinhos de safras raríssimas a preços exorbitantes…
O que pleiteiam esses indivíduos, ao mentir reiterada e descaradamente, para que as suas mentiras assumam ao fim ares de verdade?

O que há de podre por trás de toda essa propaganda governamental odiosa, dessa proposital e perniciosa divisão dos seres humanos em brancos e negros, ricos e pobres, homens e mulheres? O que querem com isso?

Só há uma explicação: manter-se no poder, retardando a marcha do desenvolvimento humano, locupletando-se com os vastos recursos do Erário.

Se você, caro leitor, observar o discurso político desses indivíduos que dizem “lutar pelo social”, constatará facilmente que da boca deles só partem palavras recheadas de hipocrisia. E isso amparado, não raras vezes, por uma mídia comprometida com esse falso ideário de promoção do crescimento da coletividade.

Certo é que a hipocrisia desses “líderes” está mesclada a outros “talentos” não muito condizentes àquele que pretende exercer um encargo (munus) público: a violência. O engodo. A criminalidade e a corrupção. A mentira contumaz: além de renegar a história do País, negam sistematicamente todos os atos ilícitos que lhes são imputados, mesmo ante as provas mais robustas, coligidas diligentemente pelos órgãos estatais de investigação e persecução penal.

O maior engodo empregado por esses seres consiste justamente em passar a falsa ideia de que trabalham e defendem o social, os valores ético/morais, a família, a educação, a saúde, o meio ambiente. Envolvem o povo em seu discurso essencialmente vazio, apregoando supostas conquistas sociais e doando parcas migalhas daquilo que pertence ao próprio povo, através dos auxílios governamentais.

Não que sejamos contra o oferecimento desses auxílios, ad argumentandum tantum. Eles existem em diversos países, até mesmo nos mais adiantados, com economias sólidas. Mas ao contrário do que acontece no Brasil, é comum o cidadão recusar tal ajuda, por considera-la humilhante e vexatória. Depender do Estado, para muitos indivíduos, seria assinar um atestado de incapacidade.
O certo é que o Estado brasileiro deve (ou pelo menos deveria) proporcionar condições para que o administrado possa conquistar o seu espaço através do trabalho e da educação de qualidade, únicos meios para se garantir a ascensão social do indivíduo.

Quantos já ouviram certos políticos tupiniquins afirmarem: “o pobre hoje pode viajar de avião e mandar seu filho à universidade”; ou “o pobre hoje tem a panela cheia”; ou “o pobre pode agora comprar a sua casinha e equipá-la com aparelhos último tipo”. Ora, convenhamos, isso é o mínimo que se espera de todo e qualquer governante, que assume o compromisso de cumprir a Constituição Federal, e não promover uma infundada luta de classes ou de gêneros (até porque integramos uma coletividade de pessoas sobre uma base territorial e pertencemos todos ao gênero humano).

Afinal, um dos principais objetivos da República Federativa do Brasil consiste precisamente em promover o bem de todos, sem qualquer discriminação quanto a cor de pele, sexo, religião ou região que habita (art. 2º).

Mas observa-se que é da natureza do ser humano se comover e apoiar aqueles que aparentam sofrer ou ter sofrido muito para ascender socialmente. O indivíduo que foi abandonado pelo Estado se identifica com aquele sujeito que aparenta ter saído da pobreza a agora defende os direitos de uma população quase sempre carente de tudo. E esta, órfã de quaisquer referências dignas, se volta para esses ícones vazios de princípios superiores.

Sim, pois estas almas destituídas de princípios só se interessam por elas mesmas. São ególatras e agem como um bando de hienas pilhando a caça de outrem.

A história se repete, já dizia o famigerado filósofo florentino Nicòlo Machiavelli (1469 – 1527), tal qual se esta fosse uma peça de teatro, mudando apenas os seus atores. “Aquele que estudar cuidadosamente o passado pode prever os acontecimentos que se produzirão em cada Estado e utilizar os mesmos meios que os empregados pelos antigos. Ou então, se não há mais os remédios que já foram empregados, imaginar outros novos, segundo a semelhança dos acontecimentos. (Discursos, livro I, cap. XXXIX) ”. E, de fato, nessa repetição histórica dos acontecimentos, os governados parecem apreciar aqueles governantes que afirmam estar ao lado da pobreza e digladiando com os ricos – sem avaliar detidamente as palavras e as condutas daqueles –, distribuindo a mancheias as benesses estatais, sem se preocupar com a geração de empregos e o fomento das atividades econômicas. Afinal, quem produz e trabalha é quem verdadeiramente sustenta as despesas de custeio e de investimentos estatais. Se o Estado não emprega seu patrimônio na geração de receitas próprias (as conhecidas receitas originárias), só pode obter recursos amoedados “metendo a mão” no bolso dos contribuintes, através dos tributos (impostos, taxas e contribuições), também conhecidos como receitas derivadas, vez que “derivam” do poder de império estatal para, através de lei, instituir e exigir tributos (art. 145, consoante com art. 150, I, da nossa Carta Magna). E aí sofre toda a sociedade: uma empresa pode ser esmagada pelos impostos e consequentemente fechar postos de trabalho para se manter no mercado, ou mesmo encerrar as suas atividades.

Os tolos acreditam em quaisquer promessas que caminham ao encontro de facilidades econômicas, sociais ou educacionais, ou quiçá de outros direitos. Sim, pois a grande maioria dos seres humanos prefere mesmo é a lei do menor esforço. Para que eu irei produzir, se posso tomar tudo daquele que tudo conquistou?

Mas não. Ao invés de, por exemplo, procurar a promoção do bem comum mediante erradicação das favelas, tais governos tentam, assessorados pela mídia, glamorizar a vida nessas coletividades, como se ali – onde falta a presença do Estado, em todos os sentidos – fosse o que há de mais belo, mesmo em face a todas as violências aos seres humanos que ali são praticadas: moradias inadequadas; falta de saneamento básico; controle social por parte de criminosos. Rebatizar as “favelas”, atribuindo-lhes o hipócrita vocábulo “comunidades”, é um verdadeiro atentado à dignidade humana.

Os governos agem como os nazistas agiam, ao encerrar os judeus nos guetos: mantê-los naquele estado degradante. E veicular novelas e seriados com esse intuito é o que há de mais torpe em nossa torpe realidade tupiniquim, pois visa manter o indivíduo vinculado permanentemente ao seu gueto, impedindo que o sujeito possa refletir sobre a sua situação e exigir aquilo que o Estado tem por fundamento: promover o bem de todos.

O discurso vazio do “politicamente correto” exorcizou o lugar da realidade nua e crua. Eis a verdade.

E não para por aí. A par da profunda crise econômica e política por que passam os países latinos na atualidade, parece-me que se intenta uma absoluta derrocada dos valores da família, sempre vista até então como a célula mater da sociedade. A aprovação de determinadas leis, retirando dos pais os poderes de condução da vida dos filhos, com a destruição da ideia de autoridade familiar, faz-me relembrar as situações contempladas por George Orwell em sua obra intitulada 1984: os filhos se encontram a serviço do Estado e delatam os próprios pais, por qualquer palavra proferida contra o Grande Irmão, ou seja, o poder constituído.

Segundo Alexis de Tocqueville, há uma falsa ideia de que o socialismo é o “salvador da pátria”. Na verdade, o socialismo ignora as mais elevadas virtudes humanas, mina a propriedade privada e sufoca o indivíduo. Talvez o grande erro do socialismo seja justamente isso: nivelar o ser humano por baixo. Esqueceram-se os seus teóricos que os seres humanos são essencialmente diferentes, com aptidões distintas uns dos outros: esse tem habilidade para pintura, aquele para ensinar; este não tem uma visão empreendedora, enquanto aquele faz com que tudo em que toca se transforme em ouro. Enfim, apesar da sua natureza comum – todos pertencermos ao gênero humano –, não é possível dissociar as individualidades e reduzir todos a uma vala comum. A plena potencialização dos talentos naturais precisa de ampla liberdade para fluir. E é justamente isso que o Estado tem que proporcionar aos seus administrados.

Como bem assevera Tocqueville, enquanto “A Democracia visa à igualdade na liberdade. O Socialismo deseja a igualdade na limitação e na servidão”. E é justamente por isso que os líderes socialistas atuais querem fazer crer que os regimes comunistas e similares são o único caminho para reduzir ou acabar com as desigualdades. Isso é uma falácia! Afinal, “O comunismo é tão ruim quanto o imperialismo”, já aduzia o líder queniano Jomo Kenyatta (1894-1978).

Observa-se, pois, que um sem número de atos execráveis continuam a ser perpetrados em prol desse pútrido projeto de poder. Os demais poderes, que deveriam funcionar adequadamente em um regime de pesos e contrapesos, na visão “montesquiana” de tripartição do poder, encontram-se contaminados por essa ideologia. No caso do Brasil, temos uma corte constitucional dominada por representantes do partido do chefe do executivo, reeleita em um pleito eivado de flagrantes irregularidades, que deixa pasmo qualquer beócio.

O sentimento que hodiernamente aflige o brasileiro é, sem dúvida, de nítida indignação ante tamanha impunidade que grassa em nossa pátria, fazendo com que as palavras de Rui Barbosa sejam ainda atuais: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”

Creio que enquanto o ser humano não compreender a fundo a sua fragilidade e que dependemos uns dos outros para sobreviver nessa Terra, nenhuma corrente ideológica será capaz de resolver tantos desequilíbrios humanos. Acredito que as duas primeiras máximas evangélicas poderiam auxiliar decisivamente na construção de uma nova sociedade mundial.

Mas isso é uma utopia que dificilmente verei concretizada nesta minha existência.

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